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quinta-feira, 15 de julho de 2010

Entrevista com Muricy Ramalho - parte 1



Conheça um pouco mais do técnico Muricy Ramalho. Ele foi entrevistado por Tatiana Furtado para o jornal O Globo.

Seu nome é um dos cotados para assumir a seleção brasileira novamente. Em 2006, você já havia dito que se sentia preparado. Continua? Está pronto para ser o técnico?
MURICY: É claro. O técnico de futebol tem que estar preparado pra tudo que acontecer com ele. Existem vários técnicos bons que têm capacidade de assumir, como o Felipão. Mas não podem chegar em você, te fazer alguma pergunta, daqui ou de fora, e não saber responder, não ter conhecimento. Você é técnico, tem que se preparar, estudar, estar olhando jogo todo dia.


Puxando o assunto seleção, você sempre diz que sua maior frustração foi não ter ido à Copa de 78 por causa de uma lesão. Ser técnico da seleção poderia superar isso?
MURICY: Pode ser porque realmente é uma coisa que marcou e eu não esqueço. Era a minha oportunidade, faltava um ano, com certeza eu iria. Não ia ser titular porque o titular era o meu ídolo Zico, e eu ia ser reserva dele. Já estava ótimo. Até hoje não esqueço. Na vida acontece isso. Tira uma coisa de você e depois dá outra. Depois disso fui muito feliz, em todos os lugares que passei ganhei título. Não sei, a vida pode me reservar ainda uma Copa do Mundo.

Isso mexe com você?
MURICY: Deixo que tudo aconteça naturalmente, sou discreto, não gosto de ir à TV, só dou entrevista porque vocês pedem. Tem que se trabalhar nos lugares porque você merece, porque conquistou. Armar esquema para chegar aos lugares não é comigo. Se acontecer, tudo bem. Não perco o sono por isso não. Como foi em 2006, meu nome foi muito falado, não aconteceu, não senti nada, continuei na minha.

Como jogador e como técnico, você conviveu muito com o Telê Santana, que também tem uma grande história no Fluminense. Ele foi o seu mentor?
MURICY: Tive vários técnicos, tive o (Rubens) Minelli, aprendi muito com ele, ele começou a mudar muito os treinamentos no futebol. E o Telê, que foi meu técnico como jogador e depois fui trabalhar como auxiliar dele. Já o conhecia, sabia a maneira que ele era, era chato pra caramba. Vocês dizem que sou chato pra caramba, vocês não viram o Telê. Era muito duro, falava muito pouco, não sorria nunca. Mas tinha essa coisa de trabalho, trabalho, e assim construiu a carreira dele. Eu peguei muito disso aí e a minha personalidade era parecida com a dele. Por isso acho que dei certo com ele. Às vezes, ficava uma semana sem te cumprimentar, nem um bom dia e boa tarde. Tinha que saber lidar com ele. Aprendi demais com ele, a parte da disciplina, obcecado pelo trabalho. O cara ganha um título e se acomoda. Aí é o mal da pessoa e ele nunca se acomodava. Depois tive o Parreira, um cara ótimo na parte de teoria, grupo, treinamento excelente. Mas o Telê realmente é o cara que me espelhei.

Agora você pode seguir os passos dele...
MURICY: É legal porque trabalhei muito tempo com o Telê e ele contava as histórias da vida dele. Ele passou por vários times e a seleção, inclusive. Mas a história que ele mais gostava de contar, por incrível que pareça, era do Fluminense. Nem mesmo do Atlético-MG ele falava tanto. Contava muitas coisas do tempo que jogava aqui, do carinho que tinha aqui. Isso acontece por ser bem recebido no lugar, cria a identificação. E estou aqui seguindo os passos dele. Agora só falta ir pra Copa do Mundo (risos).

Você chegou ao Fluminense com a missão de fazer um time campeão. O que encontrou nas Laranjeiras?
MURICY: Encontrei um lugar e a torcida muito parecida com a do São Paulo, a maneira de torcer, de ir ao estádio. As Laranjeiras, muita fama, tem muita história. Como é tombada, não podemos mexer muito. Mas temos que melhorar a estrutura. Sem boa estrutura, não adianta de nada.

O que conhece da história do Fluminense?
MURICY: Conheço a dupla famosa Assis/Washington. O time campeão da Copa do Brasil, o da final da Libertadores, o gol de barriga do Renato, que é muito falado. E claro a Máquina Tricolor, com Rivelino, Gil, Manfrini, Toninho, que é do meu tempo. Tive o prazer de enfrentar essa geração. E ganhamos de 1 a 0 deles no Morumbi.

No presente, o time parece acertado nas primeiras rodadas do Brasileiro. O Deco está chegando, como encaixá-lo?
MURICY: Futebol é difícil comentar o que vai fazer. Tem que ver o jogador, o momento, como ele se encontra. Primeiro preciso estar com ele pronto, física e taticamente. Livre para jogar, não pode ainda por causa da janela. No futebol, tudo é o momento. Como o time se encontra, o que o time precisa dele. Isso que vai fazer eu escalar ele numa posição ou outra.

E o que você acha do Deco, que é um desejo do clube anterior à sua chegada?
MURICY: Grande jogador, tem um currículo no Barcelona. É claro que não podemos pensar no que o jogador fez lá atrás. Temos que pensar hoje. Pelo que a gente conversou antes da contratação dele, está bem fisicamente. E é um meia que não temos muito no futebol brasileiro, que cadencia bem, passa bem, vai ser muito importante.

Você tem algum problema em contratações que nem sempre passam por você?
MURICY: Sou um treinador que não tenho manias. Não tenho jogador meu. Sei que tem muito treinador que é assim, que leva o cara pra lá, pra cá. Eu não sou empresário, eu sou técnico de futebol. Chego no time e treino os jogadores que estão lá. O jogador não é meu, é do time. Meu negócio é chegar aqui, trabalhar duro e ir para minha casa.

Você se considera um obcecado pelo trabalho, estuda, gosta de tática, de treinamento. O jogador brasileiro entende?
MURICY: Hoje o jogador brasileiro entende. Muitos vão para Europa e ficam tempos lá. O treinador brasileiro também está especializado nisso. Até porque se não se modernizar não chega a lugar nenhum. Claro que se falar de tática só na teoria, não vai entender. Mas se for na prática, no dia a dia, repetição, ele faz e faz bem. É só questão de o jogador acreditar no que você está falando.

É diferente da sua época?
MURICY: Muito diferente. Na minha época, era pura técnica, tinha mais espaço para jogar. Era pouco mais lento o jogo, os técnicos deixavam muito nas mãos dos jogadores. Que é o ideal. E hoje é o que prevalece ainda. Prevalecem a técnica, a qualidade, o improviso. É muito mais importante do que a parte tática e física porque o que continua decidindo o futebol é a qualidade. Não é o técnico, não é tática, é a qualidade. Mas precisa treinar. Porque antes os caras corriam 4km, hoje correm 13km. A velocidade aumentou, o espaço diminuiu. Tem que mudar alguma coisa.

Seu lema sempre foi "Aqui é trabalho". Algum problema em lidar com craques, que nem sempre gostam de treinar?
MURICY: Eu trabalhei com muitos craques. Aqui mesmo, tem o Fred e o Conca que são craques e treinam muito. Isso é questão de fazer o jogador entender que ele é craque e melhor preparado vai ser mais craque ainda. O treinador tem que ser exemplo de horário, de conduta pro jogador. Tem que cobrar mesmo, tem que trabalhar. Não vejo diferença nenhuma, nunca fizeram diferente do que eu pedia.

Se tivesse que escolher entre um craque indisciplinado taticamente ou um jogador obediente, mas não tão bom?
MURICY: Se ele chegar no jogo, tem essa fama de craque e mostra no campo, não precisa nem treinar. Deixo ele na sauna, na massagem. Mas tem que chegar lá domingo, driblar, fazer gol, fazer um monte de coisa. Mas se o cara só tem a fama de craque e fica no chinelinho, não dá. Se fizer isso tudo mesmo que a fama demonstra, ponho ele no algodão. Já trabalhei com vários craques. A coisa estava ruim, dava para ele decidir e decidia mesmo, então esse cara tem que ser cuidado. Mas tem muita gente que tem a pinta, fama de craque. Infelizmente no Brasil, o cara joga um jogo bem e já é craque. Não é assim. Craque não é isso e é um pouco de culpa da imprensa também, que põe o cara lá em cima e não é.

Falando de craque, qual foi o melhor jogador que treinou?
MURICY: O que eu já treinei nem falo. Mas o que vi jogar, depois do Pelé, que não conta, vi o Zico. Foi o cara mais completo que vi jogar. Completo porque passava, cabeceava, batia faltas, fazia gol, driblava, fazia tudo. Falar do jogador que trabalhei é difícil falar porque trabalhei com muita gente e posso cometer uma injustiça. Trabalhei com Muller, com Cerezo... Difícil escolher.

Lidar com craques, jogadores em geral, sempre tem o problema de disciplina. Como você lida com essa questão?
MURICY: A vida pessoal do cara não me interessa. Esse negócio de usar brinco, calça rasgada, celular. Essas porcarias tem técnico que não gosta. Eu só entro na vida do jogador se o que ele estiver fazendo fora daqui vai prejudicar meu time. Aí sim, vou chegar e falar: "Meu, você está exagerando, você está fazendo coisa errada". Mas fazer coisas normais, sair à noite, tomar a cervejinha, não tem problema. Desde que ele não se prejudique fisicamente. Porque, se se prejudicar fisicamente, vai prejudicar meu time, aí sim vou chamá-lo. A parte da disciplina, comportamento em hotel, aeroportos, no dia a dia aqui, isso é o mínimo que o jogador tem que fazer, isso eu cobro muito.

Já teve problema com algum jogador?
MURICY: Citar nome é difícil porque vou prejudicar alguém. Mas já tive sim. Aconteceu do cara fazer coisa errada, eu ter que chamar. Se for mais grave vai pra fora mesmo, se não for tão grave, vai na conversa. Existe uma conversa bem franca. É difícil isso acontecer comigo porque quando chego no clube eu explico pra eles quem sou, como eu trabalho, como vão ser as coisas para depois não dizer que não sabia. Sabe sim. Se fizer isso, vai acontecer isso. Fica uma coisa combinada.

Na sua época, você teve algum problema de indisciplina?
MURICY: O problema na minha época era o meu cabelo. Eu era muito cabeludo. Na época, era tempo dos Beatles, era onda. A gente tinha um técnico argentino (incrível, né, argentino gosta de cabelo grande). Ele não gostava do cabelo daquele jeito, mandava eu cortar. Eu falava: "Não corto, meu". Ele disse: "Se você não cortar, está suspenso". Então, tá, estou suspenso. Mas cortar, eu não vou cortar. Tem que ver o jogador, como é que eu faço. Mas no dia a dia era muito disciplinado. Tinha essa pinta de rebelde por causa do meu estilo. Usava tamanco, era cabeludo... Os caras achavam que você era um puta louco, mas era comportado.

O regime de concentração foi muito falado na Copa por causa do time fechado do Dunga e da Holanda, que abriu para as famílias. Você gosta de concentração?
MURICY: Eu também não gosto de concentração longa. Se joga domingo e concentra dois dias antes, não gosto. Eu concentro o mínimo possível. Claro que tem que ter uma parceria com o jogador. Não vai ficar muito preso não, mas vai descansar com a família em casa. Não pode jogar domingo, e na sexta-feira estar numa boate. Aí não dá, não é compatível. Agora, cada um tem a sua cultura. Se o Brasil faz como a Holanda fez e perde, a imprensa vai dizer que foi por causa daquilo. O cara exagerou, fez muito sexo. A verdade é essa. No Brasil não depende nada de filosofia. Depende só de uma coisa, resultado. Aconteceu resultado positivo, vai ter um monte de coisa errada que ninguém vai falar, vai passar por cima.

Como foi o que aconteceu em 2006, na Alemanha?
MURICY: Algumas coisas que aconteceram foram erradas. Jogador chegou muito acima do peso, é errado. Treino também com muita gente dentro do campo é errado. O que eu não concordo, não acho legal, é fechar muito também. Eu mesmo não consigo ficar preso no hotel muito tempo. O que faz diferença no futebol é ganhar. Se ganhar, pode fazer tudo. Pode sair, pode fazer sexo, o que quiser. Perdeu, vão te cobrar em relação a isso.

O que você achou da seleção? Como viu a derrota?
MURICY: Eu tenho uma teoria, acho que foi o gol deles. O gol deles arrebentou com o Brasil. Não foi vestiário, não foi no túnel, não foi nada. O Dunga não mandou ninguém pra trás, ele não é louco. Fez um ótimo trabalho nesses três anos e meio. O Brasil estava excelente, tomou o gol e foi a nocaute. As pessoas ficam procurando coisas. O Brasil tomou um gol que não toma, porque nossa zaga é forte e o goleiro, o melhor do mundo, aí desaba mesmo o psicológico.

Dunga teve problemas com a imprensa. Você é tido como ranzinza. Concorda com a fama?
MURICY: Acho que é a fama de uma coisa que não é verdade. Eu sou um cara bem tranquilo. Às vezes, na coletiva, você acaba o jogo com a adrenalina lá em cima. É uma ou outra pergunta de alguém. Você responde só pra esse, mas na sala tem 200 pessoas. Você responde só pra um e toma dimensões que parece que sempre é aquilo. Parece que você é sempre turrão, zangado. E não é assim. Eu tenho a minha personalidade, depois do jogo é o repórter querendo tirar proveito da situação negativa ou positiva. E é o técnico, não só eu, tentando se defender das coisas. O que me incomoda muito é tipo fofoca, o cara falou aquilo ou isso. Esse tipo de pergunta não me interessa. O que me interessa é futebol.

Incomodava criar rixas com o Vanderlei Luxemburgo?
MURICY: Claro. Isso é uma bobagem porque não aceito isso. Eu nunca comento sobre técnico adversário, jogador adversário. Acho que isso não é legal, falta de respeito. Nada que for extra-campo eu comento. Só que às vezes não interessa muito ao repórter, porque é uma coisa muito técnica, e precisa pôr um pouco de pimenta. Aí, o cara quer pôr um pouco de pimenta. Vai ter pimenta, porque não entro nesse tipo de jogo.

http://oglobo.globo.com/esportes/brasileiro2010/mat/2010/07/12/tecnico-tem-que-estar-preparado-pra-tudo-diz-muricy-ramalho-917133585.asp
Fonte: O Globo



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